gasolina – despejo-a escorrendo-me pela cara, como de uma cura se tratasse. tomo banho efectivamente; retira-me as impurezas numa tentativa de restituir a limpidez. prostrado no chão, tento adoptar uma linguagem corporal própria de um mártir. a serenidade torna-se possível pelo acender do fósforo; o fogo alastra-se pelo meu corpo e o fedor a carne queimada também. não emito um único som. estou ali, resignado, convertido, submisso. ali, naquele curto intervalo de tempo em que a minha actividade cerebral é tão intensa que os meus pensamentos se atropelam – vivo tudo, sinto tudo, sei tudo. vejo o Conhecimento materializado em algo concreto e finito e percebo a miséria de todos os que tentam lá chegar. percepciono agora a minha ruína, e findo em chamas. confirma-se o vazio da alma humana pois neste momento o meu corpo já deixou de produzir substâncias que me alçam a este mundo; acabaram as ilusões.

não há consciência após a morte. tudo o que nós fazemos na nossa vida é em função desse limite – da nossa efemeridade. e o terror desse facto é na verdade o combustível das nossas acções. o terror é fonte de Vigilância. mas morrer em si é o acontecimento mais feliz da minha vida. eu, uma fénix decadente.