uma noite, olhei para o relógio; eram precisamente 01:52. intuitivamente considerei que o 1 representava a 1ª pessoa do singular em inglês, e que o 52 era a representação de um coração. o relógio parecia provocar-me, queria arrancar de mim uma resposta. fiquei a pensar no seu significado simbólico… a partir daí, nasceu uma conexão entre mim e o 52. o 52 passou a ser uma entidade superior que surgia inesperadamente, lembrando-me que existe algo de transcendente. não quero parecer estúpido, sei que tudo isto não tem qualquer significado. fui eu que lhe atribuí significado, e mais importante ainda, fui eu que me deixei invadir pelo 52.

 

deixem-me falar-vos do 52 – o meu lado místico, profético, esperançoso. 52 é a sempre distante alvorada utópica, incerta, ansiosa e carregada de promessas impossíveis. 52 é o Salto que procuro – a minha autosuperação, a minha autoconfiança, a minha autopreservação. 52 é aquele sentimento de olhar para todas direcções sem conseguir focar algo em concreto. é a crença que até no caos possa existir uma certa ordem e determinismo. é a corda no pescoço, potencialmente letal, mas que eu faço uso para voar. é o meu niilismo e a minha melancolia. é uma espera eterna, espera que compreende o desejo de mudança – o Salto. é a crença de que talvez numa dicotomia exista uma terceira opção igualmente válida e possível!

isto (a consciência de existência) é, de facto, uma grande charada. no entanto, abram-se as portas e as janelas e deixe-se correr a brisa – o Mundo exterior que nunca cessa! sim, há muito a fazer e há falta de vontade. ainda assim, existem resistentes! significando, portanto, que existe unidade e que estamos a marchar, quem sabe, na mesma direcção ainda que por curvas desnecessárias. e até os que desistem (estóicos, epicuristas, cristãos, decandentes em geral) têm uma justificação intelectual para a sua atitude passiva. ainda que os odeie com todas as forças, reconheço o seu valor. nem que seja pelo facto de me apaziguarem porque pensar demais é prejudicial. este é um Mundo deveras interessaste, múltiplo, caracterizado por grandes dualidades e oposições:

1) oscilador moral. a moral é algo com que se pode fazer zoom in e zoom back. por um lado, pode-se estar focado no Mundo terreno e moral, seguindo as suas regras. sem dúvida que esta é uma posição confortável mas os grandes feitos devem-se aos Criadores. os Criadores não seguem as pegadas de ninguém. criam novos trilhos, novos valores, novas abordagens, novas misturas. é difícil ser um Criador, pois este luta contra a maré. infelizmente a sua obra nem sempre é reconhecida. apesar disso, é preciso acreditar e gerir este oscilador moral: nem cair no conservadorismo nem ser demasiado irreverente. portanto, é necessário gerir forças e quebrar o protocolo de forma calculada, pois inúteis são também os eternamente revoltados.

2) essência versus existência, o que surgiu primeiro? esta é uma discussão interminável. é talvez o duelo entre Idealismo e Existencialismo, e talvez neste duelo se encerrem todas as incertezas do Homem. até o problema da consciência está com este duelo relacionado, pois se a consciência fosse desmistificada talvez fosse mais fácil perceber se existe um Mundo para além da nossa experiência sensível – as formas de Platão. aborrece-me a circularidade da dialéctica porque ambas as posições parecem ser igualmente válidas e parecem ser duas faces do mesmo paradigma. quanto ao duelo, costumo tender mais para o Existencialismo uma vez que me parece uma posição menos estática. eu acordo todos os dias acreditando que eu posso mudar algo, eu faço o meu destino (para os que gostam dessa palavra). é certo que existem limitações mas este é um tipo de pensamento que nos mantém activos. mesmo que exista algo para além do que se percepciona sensivelmente, essa essência é inacessível. tal como deus é inacessível. portanto, porquê poluir a nossa existência com coisas inacessíveis? o Real está sempre em relação e penso que seria inútil conhece-lo se o Homem não estivesse nele inserido. não sei se o Homem é capaz de tornar inteligível o Real independentemente da observação, se é que tal Realidade existe! mais uma vez repito, a nossa existência é o motor de tudo o que existe. e quanto ao resto façam o que quiserem – apresentem filosofias sistemáticas ou inovem com conceitos mais rebuscados. a minha existência, parcial e errónea que seja, ninguém me tira e, assim, continuarei a fingir não querer saber de nada!

fui neste Mundo largado. cedo percebi que se nos isolarmos do ruído e da poluição do quotidiano sente-se o quão vazios somos. pois lute-se contra o vazio continuando a sua discussão e faça-se dele o ponto de partida para novos preenchimentos! auscultei também a decadência deste Mundo. a decadência espiritual e moral de indivíduos que deixaram de dizer SIM à vida. mas é na decadência que me desejo, é aí que a minha alma se radicaliza e emerge numa tentativa última de libertação. é na mendiguisse da alma que me sinto vigoroso. amo a minha condição. amo mesmo. e é isto que  faz querer continuar a esperar o amanhecer e a olhar o poente metafisicamente. 52, és tu que me proteges. eu sou feliz. 52, tu és o meu eu materializado, o meu deus inexistente, personificação do meu consolo. 52, eu amo-te.

a

felizes os  lutadores, que marcham em prol do Conhecimento.
felizes os que não receiam os caminhos mais sinuosos e perigosos.
felizes os contemplativos, os desconfiados, os antidogmáticos, os que conseguem ser múltiplos.
felizes os que gerem o vazio da alma e se deixam ficar por resolver.
felizes os honestamente falsos que se tornam fingidores e dissimuladores de emoções.
felizes os sem arrependimento, que até renunciam à própria renúncia.
felizes os egoístas que acreditam que os seus sentimentos são os mais nobres.
felizes os que se defendem orgulhosamente com unhas e dentes.
felizes os que interpretam a sua ruína e glória como um balanço de extremos variáveis.
felizes os conscientes que percebem a sua incapacidade e, ainda assim, superam todas as encruzilhadas.
felizes os insensíveis que têm o mais puro sentido de Humanidade.
felizes os sem destino que se determinam por instinto.
felizes os que não procuram a felicidade, e a encontram encontrando…

 

para os curiosos: esta parte final, escrita em forma de bem-aventuranças, tem precisamente 152 palavras. também não é por acaso que são 13.