não existem albertos caeiros. a sua simplicidade é derivada a partir de seres pensantes. caeiro nem sequer era caeiro, era um fernando pessoa com vontade de não pensar. percebo a vontade de não pensar, dói ser consciente. mas ser consciente é também estar no topo do mundo, e ser capaz de manobrá-lo em favor próprio. saúdo aqueles que conseguem gerir este peso de ser consciente e que não se deixam levar pela filosofia de caeiro. saúdo também aqueles que tomam partido de caeiro, pois a sua filosofia não tem de ser tomada como uma atitude de desistência. ser como caeiro é uma forma de protecção, pois o pensamento excessivo pode também ser causa de embaraço.

a presença de caeiro em cada um de nós pode ser interpretada como um indicador de pensamento. aqueles que mais acusam caeiro nas suas vidas são dotados de um olhar mais simples e redutor, recusando o pensamento. aqueles que acusam apenas vestígios deste indicador são mais exigentes com o olhar, e pensam até aquele estado de ansiedade e inquietação. no entanto, só um ser pensante seria capaz de surgir com esta relação entre caeiro e o pensamento. só o próprio facto de caeiro se afirmar como ser não pensamente permite inferir que existem seres mais pensativos. caeiro tem, portanto, origem em seres pensantes. então, os caeiros não são sequer pessoas simples e genuínas. um ser simples nunca se consideraria simples, se não, não seria simples – usando uma linguagem muito própria de caeiro. não existem albertos caeiros!