a metafísica está a perder importância. tal fenómeno pode ser comparado à morte de deus, e também esta morte é motivo de desolação.  adoro a metafísica pelos seus mistérios. a metafísica é a prova de que o homem está sempre insatisfeito. haverão sempre pequenos detalhes que o atormentarão, e aí continuarão a surgir suposições metafísicas numa tentativa de completar o mosaico. mas suposições são suposições e suposições metafísicas são ainda menos supostas. suposições que eu próprio adoro fazer, ainda assim, é um tipo de conhecimento pouco sistemático. é necessário transpor a barreira, procurar consolação de outra maneira. primeiro matou-se deus, agora exiga-se uma morte ainda mais desconcertante – a de tudo o que está para além de.

a nossa mente é o nosso corpo. os nossos sentimentos têm de ter origem em algo físico, concreto, bioquímico talvez. a divisão entre corpo e mente nunca me convenceu. não acredito na sua dissociação, embora reconheça que o dualismo revolucionou a análise deste problema mente-corpo. eu mantenho-me na minha suposição, talvez predominantemente metafísica, de que a mente particulariza a parte do corpo que ainda não compreendemos. interpreto a criação de conceitos como mente ou espírito como representativos do desconhecimento e insatisfação humana. a metafísica nunca irá morrer definitivamente mas irá ser recalcada a pouco e pouco. e é necessária muita coragem para o aceitar.

gostava de acompanhar atentamente a metafísica findar; gostava mesmo de ver qual o rumo do pensamento humano após este acontecimento. tal como na morte deus, não será este feito demasiado grandioso para o Homem? quando a metafísica deixar de fazer sentido, qual será o sentido da nossa existência? temo que tudo se transforme numa frieza objectiva e materialista desinteressante.

é inevitável – ela está em vias de extinção.