olhar para as paredes não é simplesmente nelas fixar o olhar. a sensação de estar confinado entre quatro paredes brancas é equivalente ao sentimento de um eremita que se isola no alto das montanhas, ou nas profundezas de uma gruta. é comum o desejo de distanciamento e consequente abstração. é no confronto com as quatro paredes, na disforia de toda a (aparente) excitação, que algo novo surge. a (aparente) excitação deve-se à regularidade do dia-a-dia. o dia-a-dia distrai-nos com desejos, sentimentos, necessidades, vontades. no confronto com as quatro paredes, o mundo surge-nos sem propósito. somos invadidos por pensamentos perturbadores, obscuros. no meu caso, imagino o mundo tal e qual como o percepciono, mas sem pessoas. criei esta imagem há muitos anos, desde o tempo que em mim reconheço existência. imagino cidades desoladas a serem varridas pelo vento, poeira numa dança caótica. tiro-lhes as pessoas para lhe tirar a consciência, e debato o porquê de existir algo em vês de nada. materializo as dúvidas existenciais nesta imagem. outros poderão eventualmente discutir a brancura das paredes, e o eventual preto que nelas existe… e não será tudo isto absolutamente imprescindível?