o paradigma do megafone estragado mudou. se antes o problema estava no fraco poder de amplificação do megafone, agora o problema centra-se no comunicador em si, na sua falta de vontade de transmissão.

toda a gente se farta de um megafone porque a dada altura entende-se a sua inutilidade. a mensagem torna-se ruído. o ruído não se trata necessariamente de um som intenso e desagradável mas de um som cíclico e, consequentemente, extenuante. segue-se então que a única mensagem orientadora digna de ser gritada ao megafone deveria ser: “encontra tu também as tuas próprias respostas e ignora quem te grita aos ouvidos”. diria que só se deve gritar aos ouvidos de pessoas que expressem essa vontade, que desejam sujeitar-se a linhas orientadoras de terceiros. e aqui já se adivinha um enorme problema, o problema do subjectivismo, pluralismo, relativismo axiológico. ok, tudo é válido mas tem de haver pontes entre as diferentes realidades, talvez uma escala avaliadora – neutra, exterior e independente de cada realidade. prevejo uma objecção a esta última ideia uma vez que esta escala que considero necessária colapsa a premissa subjectivista. se assim for, eu não acredito no subjectivismo e, por muito que me custe, vou ter de admitir que sou “conservador”. a falta desta escala resultaria numa concepção demasiado anárquica, até para mim. no entanto, admito que cada um tenha uma escala diferente e aqui parece-me residir o aspecto subtil do subjectivismo. sem escalas, os conceitos, as acções evoluem para erros, para gritos de contracultura. este é o problema do subjectivismo: cada um grita para seu lado tentando combater o que está instituído mas como cada um empunha a sua luta ferozmente, confiante de que existem várias verdades, não há partilha. trata-se de um sistema condenado à inércia.

o megafone esvaziou-se de mensagens mas continua o seu processo de catalogação. sou confrontado com ideias com as quais me identifico e fico a pensar: “também em mim reside a essência dessa ideia. eu já pensei nisso!”. e nunca sei bem se devo consolar-me ou decepcionar-me. o meu medo é chegar onde talvez outros já tenham chegado e completado o processo de catalogação sem me terem avisado. é precisamente este processo de catalogação que me preserva, nunca desistirei do Conhecimento, da Física, do rigor, do trabalho – eis a minha própria anestesia.

http://www.youtube.com/watch?v=ft0lPtPdTp8

Tempel – Colour Haze