pergunto-me se me sinto realizado. nem sequer exijo uma resposta concreta. (merda para os sim e os não, que são a mesma merda disfarçada de maneira diferente.) interessa-me ser místico e dar uma resposta pouco clara. talvez o propósito seja mesmo esse – provocar a reflexão através de contributos intencionalmente ambíguos. é estranho e até posso concordar que é um pouco irracional mas adoro tanto a ideia de que as grandes respostas não são para serem gritadas ao megafone. em vez do megafone, porque não uma daquelas máquinas de fumo que espalham mistério? assim se perpetua um ciclo em que novos espíritos serão seduzidos para a busca; até que cessam actividade e preocupam-se em deixar “descendência”. refiro-me às questões que nos inquietam individualmente – a percepção que temos nós próprios, a nossa posição no plano. precisamos de ilusões, de grandes ornamentos, de falta de clareza, de inquietação. e faça-se uso do megafone para gritar bem alto que: ambicionar uma meta é uma mistura de ousadia e coragem. portanto, tentar é conseguir.

olho-me ao espelho e encho-me de vontade para dar uma resposta! diria que o mérito do espelho está na sua capacidade de estimular a nossa mente e não nas suas propriedades reflectoras. nunca ele me reflectiu envergonhado embora não oculte o facto de eu nunca estar integrado onde devia. não o lamento pois também vejo reflectidos orgulho e vontade. amo a minha condição ainda que conclua que o caminho é confuso. apesar de tudo, estou convicto em relação ao solo que quero pisar, e assim me deixo ficar por resolver, evitando estrangular o leque de possibilidades. não existem espelhos fiéis – seria necessário transcender a minha esfera, aceder à do espelho e regressar. neste caminho tudo se torna impuro, falso. então posso afirmar, sem pesar, que me meteorizo, falseio e adapto da forma que mais me convém. e como não poderia eu fazer isto, se não para me tornar vigoroso e acrescentar à minha existência algo de verosímil, como um puzzle que se vai adivinhando completo…

…mas até esta minha interpretação, o meu diagnóstico através do espelho – o espelhamento da minha falsidade, pode ser um exercício em que eu me falsifico devidamente. então, surge-me a ideia de que estamos continuamente presos a ilusões. e não será esta condição absolutamente necessária? a nossa especialidade é precisamente tornar o real maleável segundo o nosso sentido estético. uma ilusão é uma escolha, potencia-se uma parte e torna-se a outra impossível. a paixão é necessária. nunca gostei da busca pela razão. ou melhor, claro que gosto e busco-a incessantemente. a razão talvez seja a tentativa de o Homem catalogar e descrever o que o rodeia, caracterizado pelo travo distante e desconexo, impelindo todos os porquês. mas é aquela coisa estranha que está sempre longe e que nunca se atinge, assemelhando-se a uma assimptota. não vale a pena renunciar a uma paixão afincadamente. a paixão, o erro, a ilusão são também necessários e perfeitamente legítimos. é injusta a separação destes dois conceitos. a paixão assimila a sua falta de eficácia buscando, de bom grado, a razão. e a razão facilmente percebe que a espontaneidade é mais amiga da paixão; entende que é necessário ser múltiplo e não duvida que a paixão é amiga da autopreservação pois esta colmata todos os defeitos…

…a paixão colmata todos os defeitos!

20/2/2012