mas eu continuo a pensar e não me vem nada… todas estas encruzilhadas, um mar de silvas em que é impossível avançar em linha recta. e nós tão fracos, tão vulneráveis, tão aplicados em descobrir o núcleo das coisas. mas o que é que tem o núcleo das coisas? não tem nada porque nós só vemos até onde os olhos enxergam e, apesar de todos os maquinismos actuais, somos parciais. inevitavelmente, PARSIAIS! o mundo só nos é em relação e, por isso, descrever o mundo é ser narcisista e entendê-lo na nossa percepção. não poderá existir apenas nada? nada mesmo, tirando-lhe assim até a condição de nada já ser algo. não me interessa o lado de dentro das coisas porque esse lado não é das coisas, é meu. eu sei lá se eu sou como me vejo ao espelho. eu vejo-me e estou lá, existo para mim. talvez seja só uma marioneta e nem consciência disso tenho. no entanto, amo buscar esta perspectiva humana, parcial das coisas. quero muito descrever o mundo físico buscando assim algo que não me é imediato. esperando um dia atingir o núcleo das coisas? não. perceber apenas a perspectiva humana das coisas. um jogador do mais alto nível. e a metafísica fico eu com ela porque me é evidente. tão evidente que até chega a ser difícil conter-me nos momentos com ela. continuo esperando a confirmação de que tudo isto não é mais do que uma inteligente e planeada provação…

ainda me faltam muitas respostas. onde é que eu pertenço? ao alto das montanhas, à perfeita comunhão comigo mesmo? à vida social, terrena? ou algo no meio disso? analiticamente falando, nas montanhas. onde tudo é possível. as montanhas não pressupõem sequer uma ruptura de contacto com a sociedade. pressupõem um olhar mais elevado, cuidado, uma posição de omissão – provocando o pensamento, ocultando a resposta, forçando a demanda em sua procura. mas… não seria legítimo sonhar com montanhas povoadas? oh sim, seria. mas assim não seriam montanhas. os da montanha divergem, individualmente, e essa união colapsaria precisamente esta condição. sempre iludido. sempre a tentar amar. sempre a tentar acreditar que é possível a união. mas não é… estou e estarei sempre sozinho. e serei sempre esta barra de ferro, independentemente de tudo. gozando fugazmente pequenos momentos de contido prazer, ainda que especiais pela quebra de rotina. eu não sou estóico. mas é preciso ser-se estóico. prefiro dizer que sou um bocadinho Caeiro (embora eu não tenha receio de admitir que penso) e quero não pensar porque isto é NADA! É MESMO NADA! mas precisamos de ser tudo neste nada…

não me seduzam, não me tragam sequer os meus mestres que tanto amo. Robin Staps, Nietsche, Pessoa, beijo-vos a fronte mas afasto-me vertiginosamente de vós porque eu sou das montanhas! tal como vocês são (ou foram, infelizmente a morte pegou-vos e não vos posso alcançar). não quero as vossas ideias, quero o vosso espírito, quero inspirar-me em vós. quero deixar de ser humilde e, principalmente, deixar de me resignar à minha insignificância.

assim se escreve um bocado como Caeiro, usando apenas o conector “mas” para introduzir o outro lado da moeda, mas tirando sempre o lado de dentro. ele existe e eu busco-o; mas não o louvem porque ele só tem significado para nós. como podem ser ainda satisfatórios feitos que apenas significam para nós? auto superação – vá lá, impera nestas gentes! eu quero mais, eu quero chegar ao lado de dentro! mas ele não existe… e assim me deixo encostar a um canto pedindo mais um dia perfeito, em que opera em mim tanta coisa contraditória, diversa e, sobretudo, interessante.

a ouvir:
Cartola – Cartola
Dōitashimashite – Omar Rodriguez Lopez Group

Enter the Void (2009)