alegria, grande ironia. é tudo uma grande peça de teatro. só que a peça é tão vanguardista que ou não existe público; ou, caso exista, é participante. (há uma grande diferença nestas duas suposições – na primeira o Homem é livre, na segunda é uma marioneta). pior é quando o pano cai e as personagens estão por conta própria. o papel que representavam deixa de fazer sentido e nem sequer surge um imperativo de bravura e coragem que as faça assumir o papel do realizador. mas isto faz algum sentido? eu diria que não. deveria ser na intimidade de cada um que tudo seria possível. saudade do realizador porquê? existe algum melhor do que nós próprios? claro que não. o pano cai e toda a gente tem medo de dar o próximo passo, ainda que o espaço nunca tenha estado tão disponível. então, se quando estamos por nossa conta, estamos condenados à inércia, talvez a consciência seja apenas uma máquina que nos continua a atirar areia para os olhos, perpetuando a contínua tarefa de os tentarmos limpar…

a queda do pano resulta em falta de consciência ou noutro estado de consciência? se for noutro estado de consciência, é um desafio operar nele. é um desafio sermos senhores de nós próprios! mas talvez aí esteja a auto superação que procuro. e também não temo vazios nem vácuos nem imponderabilidades. volto sempre ao mesmo – à tentativa de perceber o que é a consciência. por isso, sim, preciso de alguma coisa que me coce as costas. ou de alguma ilusão a que me possa agarrar. mas são só tentativas e, enquanto puder, continuarei experimentando = vivendo.

temos sentidos. temos a consciência para interpretar os sentidos. e se a nossa consciência estiver demasiado poluída? podemos buscar outras consciências? fazendo o paralelo com a moral, em que o ser moral é o que segue a conduta moral vigente e o imoral é o inverso, será que a consciência pode ser tratada do mesmo modo? ou consciência existe só uma e, portanto, apenas se pode fazer zoom in e zoom back?

seguindo a lógica de que a peça de teatro representa a consciência, e o cair do pano representa a abstracção. isto é, se a consciência for o que nos mantém focados no comum do quotidiano, e a abstracção for a auto superação/autodeterminação – devemos ousar ir para além da consciência e tornarmo-nos, engenhosamente… inconscientes?


Altered States (1980)

a ouvir:
Revelation & Mystery – Samsara Blues Experiment
Lost Fathers – Wild Tiger Affair
Electric Music for the Mind and The Body – Country Joe & The Fish