estou encurralado. tento pensar e voltar a pensar mas o facto de tudo ser relativo não ajuda em nada. “deus está morto”, claro sr. Nietzsche, era necessário matá-lo. e agora? “agora segue-se a transmutações de todos os valores”. transmutar todos os valores, claro, renascer. e que direcção tomar? talvez qualquer uma, não interessa sequer, dado que este jogo repete-se inúmeras vezes. a ideia é apenas continuar, o alvo poderá estar em qualquer lado. e se somos nós que damos valor à existência com a nossa consciência, então a metafísica está resolvida. tudo o que é metafísico como, por exemplo, a mente… não passam de conceitos que particularizam a física que se desconhece.

debrucei-me sobre o parapeito, e deparei-me com um poço inóspito e profundo. atormentado com a minha vertigem, corri desenfreadamente na direcção oposta.

deambulei por onde o vento me levou. transbordando esperança, iludi-me julgando que ele me levaria a alguma conclusão. porém, esqueci que ele tem vontade própria. o seu comportamento é caótico, mas não deixa de ser determinístico. é tão dotado de vontade quanto eu, é tão ou mais parcial do que eu. de que me serve andar ao seu sabor? eu sei que até existe vantagem nisso. se andar ao seu sabor for experimentar a imprevisibilidade e improvisar cada situação, então é uma experiência riquíssima. mas não agora… isso só se faz quando se anda fascinado com a vida, pois há liberdade para dispersar. o vento não merece que o meu corpo fique à sua mercê. nesse caso, onde me vou eu refugiar? não estou habilitado a um reset? onde está a neutralidade e a harmonia? não procuro a ataraxia, procuro aquele estado elevado dos niilistas que se confortam no seu orgulho. chego finalmente a uma conclusão! nós somos as variáveis. maravilhosa a capacidade de o Homem se determinar ou, pelo menos, de ser suficientemente ignorante para se prender a essa ilusão.

a nossa impotência, a nossa frustração, são detalhes necessários. e diria até que são para os amarmos. não posso perder outra vez o chão. sempre que o perco, encontro-me ainda mais abaixo e começo agora a entender que a descida é infinita.

“coragem jovem”.

sou pior que uma tartaruga. as tartarugas avançam lentamente, no entanto, têm uma qualidade inegável – a consistência. ah, como eu gostava de ser consistente e íntegro! todos nós sofremos perdas. o que nos distingue não é a gravidade das perdas mas a capacidade de lidar com elas! o paradigma do Mundo faz-nos culpar a nós próprios em vez de culparmos as situações ou os que estão nos degraus de cima da hierarquia. obviamente que não nos devemos resignar. ainda assim, é importante aceitar humildemente a existência, ainda que nos contrarie, e, de seguida, mudar algo dentro dos limites da nossa impotência.

eu só quero ser uma tartaruga pequenina e inofensiva. até faço questão de me encostar à berma para que as lebres super potentes me ultrapassem!

obrigado aos The Dillinger Escape Plan por terem partilhado este vídeo.

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Deus está morto! Deus permanece morto! E quem o matou fomos nós! Como haveremos de nos consolar, nós os algozes dos algozes? O que o mundo possuiu, até agora, de mais sagrado e mais poderoso sucumbiu exangue aos golpes das nossas lâminas. Quem nos limpará desse sangue? Qual a água que nos lavará? Que solenidades de desagravo, que jogos sagrados haveremos de inventar? A grandiosidade deste acto não será demasiada para nós? Não teremos de nos tornar nós próprios deuses, para parecermos apenas dignos dele? Nunca existiu acto mais grandioso, e, quem quer que nasça depois de nós, passará a fazer parte, mercê deste acto, de uma história superior a toda a história até hoje! – “A Gaia Ciência” Nietzsche

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Ondas passadas, levai-me 
Para o alvido do mar! 
Ao que não serei legai-me, 
Que cerquei com um andaime 
A casa por fabricar.

O Andaime” Fernando Pessoa