de manhã nunca surgem grandes pensamentos. de manhã, o espírito é ainda demasiado meloso. falta a radicalidade. o dia avança e a nossa capacidade de aguentar situações menos agradáveis diminui. quando a paciência se esgota, tentamos pensar de que forma nos podemos esquivar desses momentos. é na noite que se criam essas máximas, que irão ser usadas na manhã seguinte. então, com o passar das noites, onde tudo se radicaliza, os dias nascem e nós já não somos os mesmos. oh, pena! gostava de ser como na primeira manhã, sem ter passado por nenhuma noite. impossível dirão. e sim, não posso ser um bebé, pois este não conhece como é que os humanos se organizam. mas não aprecio esta inevitável mudança…

sobre a organização da humanidade: existem estas instituições e organizações todas, hospitais, escolas, bancos, dinheiro, cidades. o homem atingiu um nível de complexidade que é perfeito e admirável mas, ao mesmo tempo, insignificante. a imagem do mundo de hoje é tão fantástica quanto a imagem de um homem caminhando no deserto com um trapo cobrindo os genitais. claro que não desejo voltar a ser rudimentar. apenas quero demonstrar que vão sempre haver novos horizontes, daí que a complexidade e a tecnologia de hoje em dia não nos façam sentir completos. para além disso, pode-se ainda divagar se a complexidade e a tecnologia não nos deslocam daquilo que somos. nós somos tão formatados. se nós olhássemos para nós, com o devido distanciamento, iríamos rir. ou então imaginemos que existe uma espécie tão organizada como nós. somos gado e o pastor é tão discreto que até nos iludimos pensando que acumulamos esse cargo.

esta coisa das manhãs e das noites verifica-se a uma escala maior, isto é, com o avançar da idade. quando eu deixar de lutar com a noite, morri.

The Holy Mountain (1973)