sim, a ciência é objectiva e analítica e rigorosa. a natureza é uma ditadura, não há escape possível. então, ciência é talvez o modo de o homem a descrever fielmente, procurando padrões determinísticos que podem ser condensados sob a forma de leis. que estranho! a natureza apenas é, e anda-se aqui a tentar compreender algo que age sem consciência, embora esta coisa da consciência seja discutível. (sem dúvida que as leis que descrevem a natureza são mais complexas do que a natureza em si. isto porque o homem tem que “traduzir naturezês” para linguagem matemática, por exemplo, que, ainda por cima, não é inteligível de forma inata.)

o homem só percepciona o mundo segundo os seus sentidos e acha-se dono da consciência. será que alguma vez o homem vai conseguir atingir a teoria do tudo? no fundo, é importante questionar se algum dia vamos desmistificar por completo a natureza, transformando-a em algo puramente determinístico. quando esse dia chegar, eu quero morrer uma vez que não haveria um propósito a alcançar. no entanto, atente-se que este alcance pode ser comparado ao alcance da verdade filosófica, sempre buscando, nunca encontrando definitivamente. e é precisamente este círculo que é excitante e estimulante.

por outro lado, o homem da ciência é o homem que se tenta aproximar de valores de rigor e objectividade. apesar de serem necessários, são precisamente outro tipo de capacidades que são cruciais – a de criar, a de preferir, a de relacionar,… apesar de a natureza existir clara e independentemente, é o homem que tem de sair da sua esfera para atingir o conhecimento. portanto, os modelos para a descrever não podem ser  únicos. então, o ponto de partida para uma descoberta científica não é mais do que uma ideia. essa ideia pode ser ridícula, de modo que, após a ideia, vem o confronto com a realidade. o que eu quero reforçar é que natureza existe só uma, enquanto que ideias e, consequentemente, modelos podem existir infinitos. e eu acho que isto não é de todo inquietante, talvez os mais puristas se inquietem. mas retorne-se ao início: se a natureza existe independentemente de nós, isto é, se somos nós que nos tentamos aproximar dela para a compreendermos, e se nós nunca a entendemos verdadeiramente, no sentido em que ela só nos surge em relação, não temos nós o legítimo direito de escolher o modelo? modelos científicos podem ser práticos do ponto de vista da engenharia, mas podem ser uma dor de cabeça filosófica. e se é o homem que faz ciência, este não deve temer o erro  e deve abraçar a filosofia, isto é, deve escolher como quer descrever o seu mundo. e, assim, se adivinha uma tarefa futura – a de, não só ir em busca de um modelo que encaixa, mas também ir à procura de significado.

a

“In general we look for a new law by the following process. First we guess it. Then we compute the consequences of
the guess to see what would be implied if this law that we guessed is right. Then we compare the result of the computation
to nature, with experiment or experience, compare it directly with observation, to see if it works. If it disagrees with
experiment it is wrong. In that simple statement is the key to science. It does not make any difference how beautiful your
guess is. It does not make any difference how smart you are, who made the guess, or what his name is – if it disagrees with
experiment it is wrong. That is all there is to it.”